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  • Precisamos falar sobre democracia (dos EUA)

    “A democracia brasileira é frágil de origem”. Essa frase foi dita pelo professor e coordenador da FGV Escola de Relações Internacionais, Matias Spektor, num diálogo realizado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso no final de 2018, ainda sob os ânimos inquietos de muitos brasileiros pela ocasião da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.


    A opinião do professor Spektor não é isolada. Muito pelo contrário, hoje em dia há certo consenso em diversos ramos das ciências sociais de que estamos atravessando mais uma crise dos valores liberais, sobretudo no tocante à democracia. Essa desconfiança já aconteceu no século passado e foi responsável direta pela eclosão de regimes como o fascismo, na Itália, e o nazismo, na Alemanha, que acabaram entre outras coisas por protagonizar a Segunda Guerra Mundial. A vitória dos Aliados em 1945 restaurou em parte a confiança no liberalismo, e transformou os Estados Unidos no farol das nações ocidentais – pelo menos até 2008.


    Mas, a democracia estadunidense também carece de um olhar mais atento. Em ano de eleição presidencial, percebe-se o quão complexo e desigual é o sistema eleitoral daquele que se considera “a maior e mais antiga democracia do mundo”. Mesmo ali, no berço de todas as liberdades, o direito ao voto é por diversas vezes cerceado com a colocação de obstáculos sutis, mas muito engenhosos, que na prática segregam a sociedade e acaba por favorecer os conservadores republicanos. Tem muita coisa errada.

     

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    Capa do bestseller Como as democracias morrem, da editora Zahar
    Foto: Divulgação

     

    No livro "'Como as democracias morrem" escrito por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, os autores citam o colégio eleitoral como uma ferramenta pela qual se impede a ascensão de outsiders capazes de ameaçar as bases da democracia estadunidense, garantindo uma alternância entre insiders comprometidos com as regras eleitorais. Na prática, eles defendem que o sistema eleitoral dos EUA, da forma como foi construído, é imune a golpes de Estado vintages como os aplicados por militares, ou à deterioração da democracia em si, como ocorre em países tipo a Hungria, Polônia, Turquia e mais recentemente Brasil. Eles só esquecem de mencionar que as regras eleitorais do país “espelho da democracia” são injustas, e que elas favorecem um dos lados na disputa interna. 


    Nesse sentido, sugiro aos interessados que assistam a minissérie da Netflix “Explicando: o poder do voto” narrada por Leonardo DiCaprio e Selena Gomez. A produção deixa claro que ser um democrata, hoje em dia, é muito mais penoso que ser um republicano, politicamente falando. Para controlar o parlamento ou chegar à Presidência da República, por exemplo, uma vitória do Partido Democrata precisa ser avassaladora, com uma diferença de 10%, no número de votos, em média, para os republicanos – isso para os EUA é um número muito expressivo. Ou seja: na ausência de uma “onda azul” é muito difícil para um democrata governar o país com o mínimo de tranquilidade.

     

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    Explicando: o poder do voto, minissérie da Netflix
    Foto: Divulgação


     Por lá, embora teoricamente o voto seja direto, secreto e universal, negros e imigrantes encontram dificuldades para exercerem o seu direito (ou privilégio) através do fechamento de seções eleitorais em regiões onde essas populações são maioria, ou simplesmente graças a um complexo e segregacionista sistema de registro ou recadastramento, que acaba por desestimular esse eleitorado – predominantemente democrata –  a ir votar. É importante lembrar que lá, ao contrário do Brasil, o voto não é obrigatório.


    Os representantes no legislativo são eleitos por distritos. Um desenho que tem, entre outros objetivos, aproximar a população do seu representante. Nesse sentido, o sistema funciona muito bem, não fosse pelo “redesenho” do mapa distrital em cada um dos estados durante um determinado período de tempo. Na prática, quem está no poder pode literalmente brincar de desenhar novos distritos – e apagar outros tantos – para favorecer aliados e prejudicar adversários.


    Esses são apenas alguns dos exemplos que explicitam os problemas graves da democracia estadunidense, que precisaria passar por uma ampla reforma em seu sistema representativo para contemplar a maioria da população que, ao longo dos últimos anos, não tem visto o seu voto surtir efeito. É como se os derrotados governassem o país. Isso causa um enorme desestímulo ao causar uma “fuga” de eleitores e que já prejudica ou minimamente levanta dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral e a consequente legitimidade dos eleitos.

     

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    Recommended Comments

    Vou assistir a série no Netflix

     

    Eu nunca tinha pensando por esse lado, que é preciso vitórias arrasadoras para o partido Democrata chegar à Presidência, acreditei sempre que o sistema dos delegados, com o elemento surpresa dos swing states, fosse apenas um mecanismo diferente do nosso, onde quem tem a maioria dos votos vence 

     

    Gostei da sua análise, vou assistir a serie no NetFlix, fiquei curioso

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    Sobre essa questão de existir apenas dois partidos hegemônicos, a tradição eleitoral secular americana certamente se reflete na aceitação do sistema 

     

    Mas o próprio Trump é um outsider, embora pertença ao GOP 

     

    Agora um outsider de fora dos dois grandes partidos enfrenta grande dificuldade numa candidatura independente, obviamente  

     

    O sistema pluripartidário pode soar mais democrático no sentido de permitir candidaturas próprias de partidos que seriam apenas segmentos dentro de um maior, mas, ao mesmo tempo,  dificulta a compreensão da política pelo eleitor médio e, na maioria das vezes, os nanicos não têm força de ação sozinhos, precisam de um partido maior de massa, e acabam funcionando como segmentos desses, embora façam questão de reivindicar a sua independência  

     

     

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    e os tolos vendem a ideia de que tudo nos estados unidos é perfeito, sendo que na verdade a realidade não é bem assim... e sabe como morrem as democracias??? quando dão título de eleitor para ignorantes sem acesso a educação e alfabetização, votaram e elegerem ditadores e ´´´salvadores da pátria´´... simples assim.

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