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  • A eleição da zona de conforto

    Se nas eleições de 2018 o eleitor brasileiro votou por revanchismo na extrema-direita conservadora que prometia livrar o país da corrupção e dos maus políticos, o pleito de 2020 chega para mostrar que a situação do nosso país, no tocante aos desvios de conduta, segue praticamente idêntica ao que se via nos anos anteriores, com operações da Polícia Federal assustando políticos de madrugada e encontrando dinheiro escondido em lugares realmente inusitados.


    Embora o Presidente da República faça pouco caso da Operação Lava Jato, vociferando aos quatro ventos que em seu governo não há corrupção, é preciso rememorar que Jair Bolsonaro (Sem Partido) enfrenta problemas no Supremo Tribunal Federal no tocante ao inquérito das Fake News e em supostas interferências na Polícia Federal. Sua esposa segue sem responder a pergunta do ano: por que recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz? Seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ) segue investigado no escândalo das rachadinhas.


    Localmente, a situação também é complexa. Além do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), outros dois mandatários estaduais foram alvos de processos de impeachment por má conduta administrativa: o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC) e de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL). Além deles, a ex-senadora Juíza Selma Arruda (PSL/MT) considerada a “Moro de saias” perdeu o seu mandato por condenação de abuso de poder econômico e captação ilícita de recursos durante a campanha de 2018. Recentemente, outro senador, Chico Rodrigues (DEM/RR) foi flagrado escondendo o valor de cerca de R$ 30 mil reais num local cujo decoro não me permite dizer. E, por fim, o atual prefeito da capital fluminense, Marcelo Crivella (Republicanos) foi considerado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral e disputa sua reeleição amparado numa decisão monocrática do Tribunal Superior Eleitoral – isso sem falar que ele também se livrou por 1 voto de um processo de impeachment.


    O que todos os casos do parágrafo anterior tem em comum? Todos foram eleitos na esteira do bolsonarismo ou fizeram parte da sua base de sustentação no Congresso Nacional, nos estados e nos municípios. A corrupção, como podemos ver, é ambidestra e está presente em candidatos de todas as vertentes ideológicas.


    Eleição municipal é eleição de zeladoria. O prefeito é o responsável por cuidar do asfalto ruim, da iluminação pública, da coleta de lixo, enfim... É uma eleição “acessória” mesmo nas grandes capitais. Politicamente, no entanto, a disputa local sempre representou uma espécie de “laboratório” antecipando tendências que podem ser – ou não – replicadas nas eleições gerais nos dois anos seguintes. Em 2020, a grande lição que tiramos até o momento é de que o padrão da eleição anterior, de eleger outsiders da extrema-direita dará lugar aos insiders da centro-direita. O eleitor brasileiro arriscou muito em 2018, e parece estar disposto a ir por um caminho menos perigoso este ano.


    Se por um lado podemos afirmar que a extrema-direita bolsonarista não vencerá majoritariamente em 2020, também é correto dizer que esses votos não serão destinados a oposição. Das 26 capitais, a esquerda tem chances de sair vitoriosa em no máximo 8, com metade delas localizada no nordeste – cito: Belém (PA), Macapá (AP), Aracaju (SE), Maceió (AL), Fortaleza (CE), Recife (PE), Porto Alegre (RS), e Vitória (ES) – mas o PT, tido até 2018 como o partido forte desse campo ideológico, dificilmente será capaz de emplacar um prefeito de capital. Sem as retóricas fortes do “golpe” de 2016 ou do “Lula Livre” de 2018, acredito que o PT deve aprofundar o péssimo desempenho já obtido nas últimas eleições locais, ocorridas logo após a queda da ex-presidente Dilma Rousseff.


    Portanto, cabe dizer que o eleitor de 2020 deverá reencontrar velhos conhecidos, como MDB, PSDB e DEM. Juntas, as três siglas somam 14 favoritismos entre as 26 capitais, dentre elas São Paulo, com o tucano Bruno Covas, e Rio de Janeiro, com o democrata Eduardo Paes. O grande vencedor dessa eleição será o que convenientemente chamamos de “centrão”.


    Um outro traço curioso dessas eleições é a quantidade elevada de candidatos favoritos à reeleição, ou o retorno de ex-prefeitos. A pandemia foi marcada por muitas vulnerabilidades do Brasil, e expôs o nosso principal problema que é a desigualdade social. Assim sendo, num cenário complicado e cheio de incertezas a partir de 2021, o eleitor tende a buscar na experiência de atuais e ex-prefeitos um nome para governar as nossas cidades pelos próximos 4 anos.


    A disputa de 2020 será a eleição dos insiders, ou seja, vai ser uma eleição da zona de conforto, da “velha política” localizada, sobretudo, numa direita mais conciliatória, mais moderada e mais experiente.

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