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  1. Hoje completam-se 25 anos da estreia do programa “XUXA”, a primeira e única – até hoje – atração comandada por uma brasileira nos Estados Unidos. Apresentações dispensadas sobre quem é essa brasileira, vamos ao que interessa: "Are you ready to begin?" (Prontos pra começar?) O primeiro convite para apresentar um programa nos Estados Unidos foi feito em 1990 e recusado por Xuxa. Motivo? A Rainha disse que não se sentia preparada com o idioma para apresentar um programa todo em inglês dentro do prazo que eles propuseram. Alguns dos maiores impérios da mídia internacional disputavam o passe da loira: as americanas Warner, Fox Filmes e DIC Entertainment (famosa pela produção de desenhos animados como Ursinhos Carinhosos, Caça-Fantasmas e Turma da Pesada) e a mexicana Televisa (cujo presidente também era dono da Univision, rede que exibia o Show de Xuxa para a comunidade latina dos EUA). “Eu me sinto dentro de uma avalanche. Uma bola de neve descendo a ribanceira sem saber direito o que está acontecendo lá fora” – disse Xuxa ao periódico “Telejornal” de Buenos Aires. (Republicado pelo Estado de São Paulo em 21/06/1992) "Ready to play all to win?" (Prontos pra jogar e ganhar?) Quem levou a melhor foi quem realmente saiu na frente. A MTM era uma produtora independente fundada pela atriz Mary Taylor Moore (daí a sigla MTM), falecida em 2017. A empresa, à época do contrato, era um dos quatro maiores estúdios de produção de TV dos EUA. Entretanto, a oficialização da parceria com Xuxa só aconteceu em meados de 1992. A ideia era negociar a exibição do programa para um consórcio de emissoras americanas. Curiosidade: o símbolo da MTM é um gatinho, Mimsie, que aparece soltando um miado no fim de todos os programas produzidos pela empresa, uma brincadeira em analogia ao leão da MGM (Metro-Goldwyn-Mayer Inc.). Assim que Xuxa fechou o contrato, ela gravou sua versão para o miado do gatinho. Ela fala “Tchaaaau” ou “Ciao”, como preferem alguns. É como se Xuxa um dia tivesse feito o som do plim-plim nas vinhetas da Globo. "Oh, here we sing and jump, dance and play..." (Aqui a gente canta, pula, dança e brinca...) No total foram 20 sucessos adaptados para o inglês. Devido à duração curta do programa (cerca de 22 min), todas as músicas eram apresentadas em versão editada, com pouco mais de 2 minutos cada e geralmente sem repetição de estrofe. O lançamento dessas músicas num álbum se tornou uma das coisas mais sonhadas entre os fãs brasileiros e isso realmente estava no “combo Xuxa USA”. A Billboard chegou a noticiar na coluna dedicada à música latina (de John Lannert) que Helio Costa Manso, diretor executivo da Globo Records USA estava oferecendo o álbum à gravadoras americanas, mas infelizmente, nada se concretizou. "Hello, hello, hello" A única música inédita foi “Talk to Me”. A composição de Eric Thorngren e David Wolff apresenta Xuxa aos baixinhos americanos, mas não é sobre a loira. O foco era quebrar qualquer resistência em razão do fato de Xuxa não dominar o idioma. É praticamente um pedido de paciência com os deslizes que ela tinha consciência que iam acontecer. A letra deixa isso bem claro, quando Xuxa explica que está se esforçando, dando seu melhor para falar um inglês perfeito e que não a deixassem falando sozinha, afinal ela tinha vindo de muito longe para conversar olhando no olho. Quando cantou que estava se esforçando para falar o inglês melhor, Xuxa não estava apenas repetindo um verso de canção, era a mais pura verdade. Ela realmente ficou aterrorizada com o desafio do idioma. “Entrei em pânico, chorei. Falei que ninguém ia me entender. Eu até disse: “por que vocês não contratam uma menina americana? Eu até ajudo!” Só que nenhuma menina americana é a Xuxa e os executivos da MTM sabiam bem o que queriam. Ao invés disso, trataram de matricular a loira num curso intensivo de inglês por dois meses na Berlitz – a mais famosa escola de treinamento em idiomas do mundo, que existe desde 1878! "Tripping over vowels and consonants" (Tropeçando em vogais e consoantes) O problema com o idioma ainda rendeu algo divertido... Xuxa tem alguns apelidos que todo mundo conhece: Xu, Xuxuca, Gracinha, mas tem um que muita gente não sabe e hoje talvez nem ela mesmo se lembre dessa história contada ao Chicago Tribune: “Eles me apelidaram de “But Why” porque eu ficava sempre perguntando as regras do idioma” (*) But Why = Mas por quê? I come from Brazil, Rio de Janeiro (Vim do Brasil, Rio de Janeiro) De certa forma foi no Rio de Janeiro que aconteceu o primeiro programa em inglês da Xuxa. Em meados de 1992, um piloto foi gravado no teatro Fênix, de forma independente, sob supervisão de Bob George, utilizando o mesmo cenário do Xou da Xuxa. Crianças da Escola Americana (RJ) e outras recrutadas no Consulado Americano formaram a privilegiada plateia. We've got a group to make you smile (Nossa turma vai te fazer sorrir) O programa piloto serviu de cartão de visitas para que a MTM negociasse o programa com as emissoras nos EUA; para isso foi montado um press-kit contendo uma fita VHS que, além de trechos desse programa, trazia também trechos da reportagem feita por uma emissora americana em 1988, durante as filmagens de Super Xuxa Contra o Baixo Astral. Já com o programa vendido para as emissoras, a MTM deu início às gravações. O contrato previa um total de 65 episódios, de meia hora cada (na realidade o tempo do programa era cerca de 22 minutos que se tornavam meia hora em razão dos comerciais), sendo que Xuxa gravava cerca de 4 programas por dia. Para tanto, um dos estúdios da CBS (uma das maiores redes de televisão aberta dos Estados Unidos) em Los Angeles foi alugado e lá foi construído o cenário do programa criado por Jimmy Cuomo. O cenário era uma espécie minimundo mais, digamos, divertido e lúdico. Assim a Estátua da Liberdade podia perfeitamente coexistir com um castelo medieval e um miniposto de gasolina e uma caravela. Parece loucura, mas esse mundo americano de Xuxa rendeu a Jimmy uma indicação ao Emmy em 1994, pela Direção de Arte do programa. A direção do programa ficava sob a responsabilidade de Gary Halvorson, que mais tarde ficaria famoso por dirigir diversos episódios das aclamadas séries “Friends” e “Two and a Half Man”. Quem diria que depois de ouvir tanto a frase "it's time for Xuxa and her friends", Gary seria o responsável pela direção de nada menos que 55 episódios de... Friends! Acting tough mean or proud (boo!) (Sendo malvados ou arrogantes buuu ) A MTM logo tratou de providenciar o release do programa para a imprensa americana e cerca de um mês antes da estreia, Xuxa já era assunto em vários jornais. Tirando uma ou outra publicação, a recepção foi boa no geral. A crítica do Chicago Tribune (publicada no dia da estreia e feita com base somente no press-kit) admitiu que Xuxa era graciosa, “a cute-one”, mas isso não compensava sua dificuldade com o idioma e ainda encasquetou com algo que, para nós, era o máximo: o momento da marquinha; e finaliza a matéria dizendo que se “eles não estavam preparados para Xuxa, ela também não estava para eles”. Já o Philadelphia Daily News (em matéria publicada um mês após a estreia – “Who is Xuxa?”) deu ênfase nas opiniões de que Xuxa era “sexy demais” para as crianças, se vestia inadequadamente e por ter posado para a Playboy quando modelo. Até aí nada de novidade, pois sempre tem um pra falar isso. O jornal reservou DUAS páginas para Xuxa e boa parte do texto é baseado no depoimento de uma artista plástica, Doris Nogueira, carioca que, na época da matéria, vivia em New Jersey. Não sabe quem é? Nem nós! O mais incrível é que a parte dessa tal senhora já começa falando que ela não assistiu o programa (e mesmo assim já saiu dando opinião), mas que "conhece Xuxa do Brasil porque passa suas férias aqui e a vê na TV". Reclama das roupas, das botas e até que todo mundo grita e anda com balões no programa, “loucos” – diz ela. E o mais curioso (para não dizer ridículo) é ela dizer que Xuxa usa termos sexistas para se referir às crianças: “meninos são ‘machos’ e meninas são ‘Barbiezinhas’". De onde ela tirou isso, gente? Não satisfeito, o jornal ainda chamou Sally Starr, atriz que fazia programas TV para crianças, incorporando uma cowgirl. A mulher ficou famosa nos 60 e a maioria de seu público se concentrava na Filadélfia. “Nunca vi e nem vou ver, vai contra tudo que acredito. Não é a tal garota que posou nua? Se essa é a TV moderna não quero fazer parte”. Resumindo: texto baseado no depoimento de quem não viu (de novo!). We're all at Xuxa's party (Todos nós estamos na festa da Xuxa) Assim como no Xou da Xuxa, a loira tinha uma turma que a ajudava no programa, mas esqueça os personagens que você estava acostumado a ver por aqui. No programa americano, as Paquitas foram intituladas “Pixies” (algo como “Fadinhas”), sendo Ana Paula Guimarães (Catu) a única do grupo brasileiro que também exerceu a função nos EUA. As demais eram americanas: Shannon Garcia, Larae McCarran e Natasha Pearce (a única Paquita negra). Dengue e Praga deram lugar a Jelly, o urso Panda, e Jam, o jaguar. Our fun, our fun will never die (Nossa diversão nunca vai acabar) Aliás, essa coisa de brincar com as palavras foi uma das estratégias de divulgação: a MTM queria mostrar que as crianças iam se divertir muito com Xuxa e usou isso como neologismo. Por aqui era o X que comandava (Xuxexo, Xenxaxional, Xuper), nos EUA era a palavra FUN (Funtastic, funbelievable) I'm trying my best for proper English (Estou fazendo o melhor que posso para falar o inglês corretamente ) Xuxa levou seu clássico “solta a franga” para a América e lá virou o “drop a chicken”, que divertia mais à própria que à meninada em geral que não entendia muito o que isso queria dizer. Óbvio que “beijinho, beijinho, tchau, tchau” jamais ficaria de fora, mas esse era de melhor compreensão: “kisses, kisses and bye bye”. Mas outro clássico de Xuxa não foi para os EUA: “baixinho”. Bob George, da MTM, vetou o tratamento às crianças: “Baixinho, em inglês, não dá certo” (Isto É, 30/09/1992). A Rainha deu um jeito: “little ones” (pequenininhos). "Jump and play 'cause it's the hour" (Pule e brinque porque é a hora). No Brasil a gente tinha Xuxa nas manhãs, na Argentina, nossos hermanos a viam no fim de tarde... E os americanos? Podiam escolher. O programa atingia 95% do território dos Estados Unidos e era exibido por cerca de 100 emissoras de TV a cabo, o que fazia que houvesse “Xuxa” em todo horário possível. Alguns exemplos: Em Nova York, o programa passava às 6:30h. Achou cedo? Em Indiana passava às 5:30h (que criança vai acordar esse horário, gente?). Em Ohio, era tão “Xou”: às 8h em ponto. Na Filadélfia(Pensilvânia) e em Boston era às 8:30h. Tinha na parte da tarde também: na Geórgia era exibido às 14h num canal e 14:30h em outro. Na capital americana, Washington, 14:30h também era o horário da loira. Lembrando que alguns desses horários chegaram a ser trocados ao longo dos anos, consideramos apenas os mais comuns e famosos. We got the power (Nós temos a força!) O plano de "xuxalização" dos EUA inclui — além do programa que a Rede Univision apresenta nas emissoras hispânicas do país — a invasão do país por vários produtos. Atualmente, por sinal, nada menos que 3 milhões de pezinhos já usam sandálias Xuxa — informações do fabricante, a Grendene, dão conta que já foram vendidos nos EUA 1 milhão e 500 mil pares do calçado. Trata-se apenas de um primeiro item de um total de 56 produtos com a grife Xuxa que estão invadindo o mercado americano.(Contigo, 16/03/1993) Uma das maiores apostas no mercado americano eram os brinquedos eletrônicos, bem diferente do Brasil, já que Xuxa foi investir nesse segmento somente por volta dos anos 2000 We got the power (part 2) De todos os produtos, a boneca lançada pela Rose Art era o que guardava maior ligação com o programa americano. Além de sua embalagem trazer fotos da atração e todo seu layout seguir sua identidade visual, algumas bonecas ainda traziam uma fita K7 com algumas músicas que Xuxa cantava na TV. A boneca fechou 1993 como a mais vendida nos Estados Unidos, rendendo até notinhas nos jornais. E olha que ela nem era tão bonita quanto as nossas Xuxinhas... We got the power (part 3) Já em 1994, com os 65 episódios exibidos na TV, a Sony Wonder resolveu também investir no “Xuxa” e colocou no mercado 2 VHS com trechos do programa: FUNtastic Birthday Party e Celebration, lançadas simultaneamente em 22 de março daquele ano. It's time for Xuxa and her friends (Tá na hora da turma da Xuxa ) O programa estreou no dia 13 de setembro de 1993. Nesse dia Xuxa tomou seu café da manhã num dos hotéis da Disney, em Orlando, acompanhada de dez crianças da Dover Shores, uma das escolas públicas mais famosas da cidade. Durante o café a loira brincou com os personagens da Disney que por ali estavam e ainda transformou os guardanapos em fantoches para brincar com as crianças. If anyone's feeling down (Se alguém está meio pra baixo ) O café da manhã na Disney era só o início da divulgação presencial da loira, mas, infelizmente, algo triste aconteceu: Xuxa ficou doente, sua coluna não aguentou o pique intenso dos últimos meses e ela caiu de cama. Tudo começou no dia 15/09, quando ela passou mal nos estúdios da ABC em Nova York, onde seria entrevistada no programa Good Morning America. Xuxa foi levada para o St. Luke Hospital, onde se constatou que ela estava com uma reação alérgica ao excesso de analgésicos que havia tomado. Explicando: sem saber que estava com uma hérnia de disco cervical, Xuxa começou a tomar remédios achando que era somente dor muscular. A partir daí todos os compromissos foram desmarcados, entre eles uma entrevista na CNN e outra para a revista Times. I'll be waiting 'till you're ready... (Vou esperar até que você esteja pronto). Xuxa não renovou o contrato para uma segunda temporada, apesar de haver interesse da MTM (O Globo, 03/01/1995). Em entrevista ela se mostrou um tanto desanimada com o que tinha acontecido: "Os costumes, o comportamento deles, tudo é muito diferente. Mesmo assim, ninguém manteve um programa dirigido às crianças lá, com o acento que eu tenho. Eles poderiam ter tirado do ar, mas mantiveram porque de alguma forma agradou. Acho que fui muito cedo para lá. Foi precipitado. Eu deveria ter aprendido mais inglês. As expressões engraçadas, e que saem naturalmente aqui, ficam meio sem sentido para eles. Além disso, trabalham de uma forma diferente: repetem a programação continuamente. Queria fazer algo que fosse mais parecido comigo." Till then I'll leave you with my mark (Enquanto isso deixo minha marquinha com você) No segundo semestre de 1994, Xuxa gravou aqui no Brasil, no cenário do “Xuxa Park” várias “cabeças” que seriam mescladas às reprises do programa, afinal ele continuava sendo exibido na TV americana. O programa também foi vendido para países como Turquia e Israel, sendo que neste último seu sucesso foi além do esperado, tanto que Xuxa foi convidada no natal de 1995 a participar de alguns programas locais como convidada especial. Agora sempre que você ouvir que algum artista está com carreira no exterior, que está “bombando no estrangeiro”, indo onde nenhum outro brasileiro foi, você vai poder dizer com propriedade “Xuxa did it first”! (*) Xuxa fez isso primeiro link na integra: http://bloggerxuper.blogspot.com/


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