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  • A disputa pelo poder local e o Brasil neocoronelista

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    Imagem: Divulgação

     

    Desde a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o Brasil já teve 38 presidentes entre oligarcas e liberais; progressistas e conservadores; 37 homens e 1 mulher; atentados, golpes de Estado e impedimentos; duas ditaduras, e algumas renúncias. Nesses quase 131 anos, nosso país também contou com seis constituições e uma série de regras eleitorais que vão desde o chamado “voto de cabresto” até as modernas e invioláveis urnas eletrônicas.

     

    Um marco importante na política republicana precisa ser destacado. Após um período agitado de marechais na Presidência da República – período que ficou conhecido como “República da espada” – resultado do golpe civil-militar que lançou a nossa decadente monarquia pelos ares, o novo regime recém-nascido só veria a estabilidade com seu 4º mandatário, ou seja, quase dez anos após a proclamação.

     

    O paulista Campos Sales instituiu uma política calcada no poder dos governadores – onde na prática estava concentrado o poder político – em troca de um parlamento onde o Governo Federal praticamente não tinha oposição. É importante ressaltar que, ao contrário do que ocorre hoje em dia, na Velha República o poder legislativo tinha a função básica de deliberar sobre questões estritamente orçamentárias.

     

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    O presidente Campos Sales (1898-1902)
    Foto: Divulgação

     

    Na prática, Campos Sales institucionalizou a prática coronelista no Brasil. Mais de um século depois, em muitos estados nós continuamos a assistir uma alternância de poder pouco efetiva, mas sempre com a participação das novas gerações de “figurões” do passado.

     

    Na Bahia, o atual prefeito de Salvador é neto do ex-governador e ex-senador Antônio Carlos Magalhães. O prefeito ACM Neto encerra seu mandato gozando de alta popularidade, com grandes chances de fazer seu sucessor. Especula-se que ele seja o candidato do DEM – antigo PFL, partido do avô, e que hoje está sob sua presidência nacional – ao Senado Federal ou ao governo da Bahia.

     

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    Coronéis do cacau de Ilhéus, Bahia. Foto: Reprodução/Blog Cinzas e Diamantes

     

    Em Pernambuco, a neta e o bisneto de Miguel Arraes devem disputar a prefeitura do Recife. Marília Arraes (PT) e João Henrique Campos (PSB) aparecem se alternando nas primeiras posições em todas as pesquisas divulgadas até o momento. No caso do jovem João Campos, ele herda o espaço político do pai, o ex-governador e ex-ministro Eduardo Campos, morto em 2014, no início da sua campanha presidencial.

     

    A presença da família Sarney ainda é sentida também no Maranhão. Depois de governar direta – com José Sarney e Roseana Sarney – ou indiretamente – através de indicados e correligionários – o estado pelo período de 41 anos, o peso da família segue sendo preponderante para qualquer candidato que queira obter o mínimo de competitividade nas disputas locais.

     

    Em Goiás, embora não tenha candidato a prefeito assinando seu sobrenome, o apoio do governador Ronaldo Caiado será bastante solicitado em muitas das cidades do estado. Além dele, um outro clã – dos Vilela – pretende governar a capital. O candidato da vez é o ex-governador, ex-senador e ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, tido como herdeiro natural do capital político de outro cacique recém-aposentado: Íris Rezende Machado – cuja esposa, que aliás também se chama Íris, já foi candidata à Vice-presidência da República na chapa do paulista Orestes Quércia, em 1994.

     

    Existem mais situações. Os Barbalho tem o governador, um senador e uma deputada federal eleitos pelo Pará. O Rio de Janeiro constituiu uma espécie de neo-oligarquia ao dar lastro político para os membros da família Bolsonaro; em Roraima, pesquisas apontam que o líder na corrida pela capital, Boa Vista, é o ex-senador Romero Jucá – mesmo ele tendo afirmado que não concorrerá a nada este ano.

     

    Os exemplos acima citados exemplificam que o Brasil permanece, de alguma forma, afeito ao mandonismo familiar, tão comum nos anos iniciais da República. Não se trata apenas de um fenômeno político, mas sim de um traço marcante, atrelado à nossa sociedade. Não que o eleitor não queira se livrar desse tipo de liderança política, mas quando a renovação apregoada em campanha não se reflete na prática, o povo tende a voltar para os braços dos velhos conhecidos, que muitas vezes fazem uma política confortavelmente arcaica, com direito ao lema atribuído por vezes a Getúlio Vargas: “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”.

     

    No interior do país, em meio às disputas pelas prefeituras, esse sentimento é ainda mais presente. Famílias rivais se engalfinham ferozmente pelo controle da política local que pode dar àqueles aliados do eleito quatro anos de paz e tranquilidade, enquanto os amigos próximos do derrotado sofrem, pelo mesmo período, alijados da boa vida que o serviço público ainda proporciona nos rincões do Brasil.

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    Recommended Comments

    Perfeição demais, parabéns @Cupertino, cada vez mais seu fã :gret10:

     

    No interior do Brasil o coronelismo tá mais presente do que nunca, e agora os candidatos que prometiam acabar com a velha política estão se aliando justamente com "os de sempre" para garantir a reeleição.

     

    Triste, por isso sou contrário à reeleição no poder executivo e um limite para reeleição no legislativo (aonde se cria literalmente os "políticos profissionais", ficando anos na política para defender seus interesses e do seu clã, e seus herdeiros dando continuidade a isso)

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